Um brinde ao frio


São 10 horas e 15 minutos, sábado, 17 ºC. Que sonho! Se eu me levantar e estiver garoando não vou nem acreditar em tamanha sorte. Vou levar alguns minutos a mais deitado e provavelmente imaginando o cinza lá de fora. Que dia lindo está fazendo! Seja bem vindo na minha vida, frio. Estava (sem exageros) morrendo de saudade. Juro que tentarei explicar. Tinha muito medo do inverno europeu desde que me conheço por gente. Morar no velho mundo então pra mim sempre foi um sonho e no dia que realizei carreguei junto a preocupação com os dígitos negativos que enfrentaria alguns meses após chegar em um verão nada assustador. De agosto de 2013 em diante fui entendendo o calor europeu que de nada me amedrontava e apreciando sua lenta transição à um frio que ainda era desconhecido. Clara na minha memória a primeira temperatura negativa em solo italiano no dia 10 de novembro daquele ano. Estava no ponto de ônibus esperando a famosa linha 33 em direção a meu bairro quando vi um termômetro marcando -2ºC. Estava agasalhado de maneira suficiente, mas comecei a sentir o frio. Ainda não tinha vivido o frio “de verdade”, mas em breve isso acabaria. A Itália, bem como grande parte da Europa, é muito bem amparada com relação aos cuidados necessários de um inverno rigoroso. Deus abençoe a calefação de cada casa. Ligada religiosamente do final de outubro até o meio de março, ela é o suporte para não congelar dentro da sua própria casa. Talvez por isso tudo se torne mais suportável. Os cerca de 300 metros da minha casa até a faculdade em Turim eram apreciados com enorme gosto em forma de uma caminhada e sentidos a cada suspiro da brisa gelada com -5ºC. O prazer de chegar em meu escritório no 4º andar e olhar a neve da janela era um capítulo a parte. Inclusive, a primeira vez que à vi foi simplesmente espetacular. Infelizmente errando a roupa naquele dia, tive que voltar pra casa com um tênis de pano que chegou ensopado de neve derretida no meu apartamento. Muitas vezes escutei a expressão “frio é vida”, e descobri que é mesmo. Me vestindo como um verdadeiro italiano no frio dos alpes de Turim, ou seja, muito elegante, recordei também da expressão “no inverno as pessoas ficam mais elegantes”. Na Itália não existe essa expressão, pois se é elegante o ano inteiro, parece estar no sangue. Lembrei dos dias de chuva em que a água batia na minha janela e escorria quase congelando na mesma velocidade que a fumaça da xícara de chá envolta em minhas mãos subia. Era pura poesia. Era pura vida. Como não trabalhar feliz? Um brinde ao frio, mesmo que com chá e com os 14 ºC de hoje.

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