Apenas um Espelho para o Sol


Refletidos ao entrarmos na praça central em frente ao Museu do Ermitage, brilhavam sem nenhum pudor naquele caloroso junho. Corri atrás dela como uma criança tentando alcançar algo que nunca tinha conseguido, foram cento e cinqüenta metros seguidos de corrida em torno da praça parando ao lado do obelisco, e segurando em suas mãos, vi que talvez tivesse alcançado aquilo que procurava. Talvez. Ainda ofegantes e ambos portando óculos de sol, sentamos acocados no chão da revolução de Lenin e tocando agora mais do que suas mãos, vi que nada podia ser mais verdadeiro. Senti uma brisa que cortava agradavelmente meu rosto como se fosse um sinal: “Acorda, é apenas um sonho!”. Não podia ser realidade mesmo. Cheguei mais perto de sua boca, como se a mim pertencesse desde sempre, e a beijei sem lembrar que realmente havia um amanhã. Logo após, ainda olhando seus óculos, vi minha felicidade refletida como em um espelho côncavo com foco em nossos sonhos. Não tínhamos explicação plausível para aquilo. Apenas vivíamos o momento que cedo ou tarde acabaria. Ela tocou minha face carinhosamente carregando consigo um medo eminente de perdê-la no próximo vôo para Itália. Perguntei a ela se recordava do primeiro elogio que tinha feito a ela cerca de cinco anos atrás. Ela disse que sim, mas não lembrava exatamente das palavras. Suplicou-me: “Diga novamente”. Respondi que apenas se ela tirasse os óculos de sol. Foi então que ao subi-lo delicadamente e pousar o mesmo em seus cabelos loiros, enxerguei-os novamente, o motivo daquele elogio. Com um brilho intenso causado por um choro evidente, olhei novamente e fiquei alguns segundos sem palavras. Foi então que após o momento de devaneio, repeti exatamente o que havia dito a ela cinco anos atrás. “Seus olhos sorridentes, são apenas um espelho para o sol”. Foram os cinco anos mais longos da minha vida.

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