La Crimée

August 8, 2017

 

Duas únicas vezes eu a vi: Paris. Incrivelmente mágica, como dizem, mas não foram os clichês que me levaram a cidade luz. Com pretexto de uma visita à um amigo conhecido meses antes, a primeira vez em Paris foi no mínimo diferente. Paris, pra quem não fala francês, chega a ser um pouco desafiadora e, pra quem fala quase nada, possivelmente é tida como um paradis. Não me perdoei por não falar fluentemente francês assim como outras línguas que domino, mas não foi exatamente tão necessária para ganhar um sorriso de um local. Xenofóbicos ou não, ainda que eu pense ser um termo muito forte, os franceses são extremamente abertos quando tentamos falar sua língua. Basta um bonjour aqui, s'il vous plaît ali e merci acolá. Feito! Estás nas graças deles. Porém, não falar nada pode ser um le grand problema. Quando cheguei nessa primeira vez, fui de trêm do aeroporto até a estação “Gare du Nord” e posteriormente a estação “Chatelet”, uma das mais movimentadas de Paris. Avistando com um pouco de dificuldade, por tamanha movimentação no local, um pequeno balcão de informações cerca de 20 metros no saguão principal, fui direto ao encontro da moça que trabalhava no auxilio de milhares de perdidos diariamente dentro daquele labirinto. Sem pensar soltei um Bonjour. Fui prontamente presenteado com sorriso mais intenso que o usual pela mesma moça. Era o simples fato de falar francês. O grande problema foi quando perguntei em francês como fazia para chegar na Pont du Neuf. Com um sorriso, agora duas vezes mais intenso, ela me respondeu em seu francês nativo em que as palavras pareciam ser ejetadas da boca como uma metralhadora, e atingido por esse golpe, eu não entendi absolutamente nada. No fim, apenas recordo de ver seu braço direito apontando na direção de uma escada rolante. Eu disse: Merci! E sai feliz como um ignorante nessa língua deve sair, a francesa. Subindo a escada rolante sai em uma rua que não me recordo o nome, mas nem queria saber, era meu primeiro contato com a cidade luz. E como era linda. Andei perdido por cerca de 100 metros. Como é bom estar perdido em Paris, diga-se de passagem. Após esse pequeno trajeto em linha reta, tomado de uma surpresa, me deparo com a Pont du Neuf que liga Paris à velha cidade, assim como é conhecida a pequena ilha onde tudo começou. Subitamente pensei: Porque aquela francesa falou tanto?! Uma escada rolante, 100 metros, linha reta, ponte, acabou! Enfim, nem tão perdido assim eu estava. Tinha a Pont du Neuf em mente por ser um ponto de referência vizinho a lugares nos quais eu gostaria de ir nesses primeiros momentos em Paris. Mais tarde e ainda sem chegar no hotel, eu só queria uma cama e meu destino parecia longe do centro da cidade, eu deveria chegar até a estação “La Crimée” que quer dizer Criméia, em francês. Se é que tem alguma ironia em tudo isso é que uma semana antes da minha chegada, Vladimir Putin havia anexado de maneira no mínimo duvidosa a península da Criméia, até então pertencente à Ucrânia, à sua mãe Rússia. A eminência de um conflito armado entre ambos passou a ser forte e meus planos de ir a Rússia alguns meses depois um pouco abalados, mas felizmente o futuro diria que não. A estação de La Crimée era meu destino ao alcance da linha 7 do metrô parisiense (ou ainda da linha rosa) no norte da cidade, mas ainda dentro daquilo que chamamos círculo principal de Paris. Meu hotel ficava a beira de um canal e ao reservá-lo semanas antes, não era de meu conhecimento a existência dele. O térreo do mesmo era aberto e tinha um bar com atendentes que falavam inglês em um sotaque muito carregado, prováveis “filhos da rainha”. Ao pegar uma merecida cerveja e ir em direção a uma larga porta de vidro, percebi que aquela era a divisão entre o saguão principal do hotel e uma espécie de sacada que dava de frente para o canal Villette. Nossa! A visão era linda, simples e mágica naquele entardecer. Não pude deixar de fazer uma foto que misturava o dia e a noite (essas são as melhores fotos) e que me mostrou que Paris tinha muito mais do que os usuais clichês. Ainda sem saber o que mais Paris poderia me oferecer, aproveitei cada gota daquela feliz e inesperada descoberta que recebia de presente da cidade luz para apenas no dia seguinte visitar meu amigo. Um pouco antes, no meio desse trajeto ao sair da estação de trem avistei a placa escrito “Metro” com letras em estilo gótico que era apenas mais um dos tantos charmes de Paris. Logo após caminhei pela rua La Crimée até o hotel. Em frente ao hotel, mais precisamente em diagonal à esquerda a pequena ponte que se sobreponha sobre o canal Villette também era uma pequena atração do bairro. Uma Paris diferente, mais calma, com mais locais, mais jeito de França, diferente do fervo central que tinha experimentado horas antes. Voltei a minha merecida cerveja e pensei se iria voltar ali um dia. Penso sempre, na verdade, em todos lugares que vou. A certeza de voltar é inversamente proporcional a quantidade de lugares que você visita. Acabei dizendo pra mim mesmo que provavelmente nunca voltaria ali. Que bom que para não me contradizer, encaixei aquele “provavelmente” na minha frase em pensamento. Três anos depois ao voltar de um congresso na Itália e vítima de uma greve da maior empresa aérea francesa, acabei sendo “punido” com uma noite de espera em Paris. Me perguntei: Onde vou?! La Crimée, claro! Voltei aquele lugar nada valorizado por aqueles que vão a Paris por uma certa torre ou por um certo museu e abri a mesma cerveja na mesma sacada de frente pro mesmo canal. Me lembrei que, a possível guerra da Criméia não deu em nada, que Putin continua no poder na Rússia e que aquele bairro de Paris ainda mora no meu coração.

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