Filhote de Fiodor


Como uma prisão ou um bloqueio enigmático, tento fugir sem sucesso das garras de Fiodor, tragado estou pela sua confusa genialidade. Certa vez pensei que pudesse expressar esse momento como uma simples fase. Errei feio. Tento sim fugir das incríveis frases de alívio e de compreensão suprema da realidade do ser, volto sempre a estaca anterior sem muitos rodeios. Sinto que não escaparei mais. Rodeado de verbetes fulos e palavras de entendimento sublimes vamos nos dando espaço dentro de um certo crime literário, o de não ler outra coisa. Um trecho de crime e castigo revela um pouco a áurea plena do meu prefácio: “Esforçava-se para não pensar no assunto. Quanto mais recalcava esse pensamento, mais ele o torturava. não tinha mais do que um sentimento, não pensava senão em uma coisa: que era preciso que tudo mudasse, de uma maneira ou de outra, custe o que custar, repetia com uma certeza desesperada e uma firmeza indomável”. Ainda querendo explicar tudo, outra vez me detive pensando a cerca de todos e como estive tão perto de entender o riso humano, talvez a forma como ele exala-se, por assim dizer, pode te revelar algo surpreendente, no fim das contas, com o tempo entendi que não podia pensar tão parecido com mais uma de suas frases: “Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente.” Novamente Fiodor, carinhosamente por mim chamado assim. Eis que as coincidências e paralelos literários me assustavam, mas hoje já não mais. As possibilidades matemáticas desse fato eram tão pequenas quanto a crença de Fiodor na raça humana, mais ainda assim, ambas existiam. Tocado pelo ar direto de suas palavras e voltado ao diretismo presente sem pudor nos trechos mais encantadores de suas obras, me deparei novamente preso em suas palavras e sem a menor vontade de escapar dali. Quando estive em São Petesburgo, visitei aquilo que foi uma de suas casas e reduto de tanta obra prima. Pensando em algo que se encaixasse ao nosso momento íntimo, olhei para formação em gesso, cercada por uma vidraça, que reproduzia seu rosto. Confuso no reflexo, nada mais nada menos, estava o meu. Olhei de novo. Era ele ou era eu? Ainda sem resposta física, obtive a verdade em forma de palavras, uma verdade dessa vez não só dele, mas minha também: “O que fazemos na vida, ecoa na eternidade”.

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