3 por 10

August 27, 2015

 

Como matemático, sempre que escuto qualquer tipo de promoção fico automaticamente calculando quanto deveria ser o preço real do produto. Não me chama atenção às vezes nem mesmo o que é. Sentada em um banco improvisado na avenida Protásio Alves em Porto Alegre, formado por três pedaços soltos de madeira, que provavelmente eram algum resto daquilo que um dia foi um móvel qualquer, enfrentando um frio de 15 graus e uma chuva chata de agosto, daquela que te molha e você nem percebe, estava uma senhora que vendia panos de prato. A “placa” feita por um pedaço de papelão e escrita a mão com os dizeres 3 por 10 anunciava a quantidade de panos de prato que se podia comprar com R$ 10,00, mas o olhar dela anunciava outra coisa. Carregada de uma simpatia incomum, sustentada por um sorriso esforçado, eu vi nos olhos dela a dor. A dor de quem não conseguiu talvez a vida que queria, de quem mais do que isso, não conseguiu dar a alguém a vida que esse alguém queria. Certa vez escutei por ai que os olhos são a janela da alma. Não lembro exatamente a autoria, mas considero de extrema precisão e felicidade sua criação. Não podia ser mais verdade. Olhando diretamente na sua alma enxerguei nela uma expectativa muito grande, não aquela de me vender 3 panos de prato por R$ 10,00, mas sim de vender algo pra alguém, de não chegar em casa com as mãos vazias ou mal forradas. Fiquei me perguntando se seriam forradas de dinheiro, de esperança ou de qualquer outra coisa que valha a pena. Qualquer coisa mesmo. Naquele dia, para ela seria suficiente que fizesse alguns graus a mais ou que parasse chover alguns instantes. Parece pouco, não é? Para aqueles que lutam por muito e esquecem de agradecer o pouco, não faria diferença. Olhei mais uma vez para sua alma, fiquei imaginando que em uma suposta promoção, o preço de cada pano de prato seria de R$ 3,50 ou R$ 4,00. Sou matemático e pra mim 3 por 4 é 12 e não 10. Abri a carteira e comecei a sorrir, eu tinha R$ 12,00. Entreguei essa quantia a ela e disse que gostaria de três panos de prato. Ela me disse que eu deveria pagar apenas dez reais, eu disse que não. Agradecendo e me abençoando em diversas religiões ela me disse que um dia alguém seria tão gentil comigo também. Se ela soubesse que muitas vezes nem espero uma retribuição. Coloquei os três panos na minha mochila e continuei caminhando sem me dar conta de como voltaria pra casa sem ter o dinheiro do ônibus, pois na verdade, estava pensando apenas como ela voltaria pra casa.

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