Fusca Azul 1979

November 16, 2016

 

Porto Alegre, 12 de julho de 1999.

 

O aniversário de 15 anos da minha prima acontecia com cinco dias de atraso na cidade de Bagé, interior do Rio Grande do Sul, meu estado, minha pátria. Na cultura brasileira quando uma menina se torna mulher, ou melhor, quando ela faz 15 anos, tem-se uma das festas mais celebradas que se pode imaginar, se reúne toda a família, parentes chegam de lugares distantes, amigos não cogitam faltar e familiares que não comparecem devem ser excluidos do hall dos "melhores" ou dos de "confiança", como chamamos. Na tradição gaúcha, não pode faltar churrasco, inclusive, nenhum domingo pode faltar churrasco. É sagrado. E assim foi, uma grande festa, mas apenas fiquei sabendo, não estava lá.

Eu estava saindo do hall supremo da minha família, tinha 14 anos e uma mente egoista ao extremo, estava em Porto Alegre para jogar um torneio de futebol. A pergunta é: o que faz você largar sua família para jogar um mísero torneio de futebol? Não tem resposta. Existe um ditado popular que diz, "Deus escreve certo por linhas tortas", eu estava naquele momento desviando todas maneiras possíves de descrever uma linha reta na minha existência, e não fazia nem sequer ideia disso. Também não fazia ideia que alguém estava escrevendo certo, independente da linearidade dessas linhas. Se por acaso, você tivesse a oportunidade de ler um bom livro com as linhas literalmente tortas, e essa história te prendesse alucinantemente, acredito que não seriam elas que te fariam parar de ler.

Hoje eu entendo que escrever “certo” naquela ocasião significava uma presença, a de meu avô. Meus pais, acertadamente, diga-se de passagem, não queriam que ficasse sozinho naqueles quatro dias que estariam fora, sim, quatro dias de festa, é mais ou menos o que dura uma boa festa no interior do meu estado. Meu avô morava em um bairro chamado tristeza na cidade de Porto Alegre, com certeza mais de 40 minutos distante da minha casa, mas evidentemente fácil de chegar. Como toda família estava em Bagé e meu avô não era um entusiasta de longas viagens, sobramos eu e ele em Porto Alegre. Galdino, era assim como ele se chamava, tinha o habito de visitar uma de suas filhas, neste caso a minha mãe, em semanas intercaladas e geralmente com uma duração de ao menos três dias. Como eram felizes aqueles três dias. Fazia tudo para seus netos, eu e minha irmã adorávamos a sua presença, podíamos fazer tudo que nossos pais impediam e simplesmente na cara deles, com o aval de meu avô. Lembro que meu pai sempre disse que eu não podia dirigir antes de certa idade, definida burocraticamente por ele e pelo governo brasileiro como 18 anos. Quem disse que meu avô era burocrático? Certa vez, me perguntou:

 

-Quer dirigir?

 

Fiquei espantado, tinha entre 13 e 14 anos, não lembro bem. Mas não teria outra oportunidade de dirigir assim antes dos parâmetros usuais, ou seja, daqui uns 5 anos.

 

-Sim.

-Tudo bem, toma a chave aqui.

 

Meu avô era apegado à coisas sentimentais, e uma delas era um fusca 1979 de cor azul marinho e muito estilo. Até hoje, uma das brincadeiras mais comuns é dizer todos deveriam ter um fusca ao menos por um tempo na vida, a experiência é incrível. Para saber dirigir um carro, você precisa aprender apenas uma coisa, controlar a embreagem. A sensibilidade dos seus pés apoiados no pedal esquerdo comanda mais do que sua visão panorâmica através do vidro dianteiro do carro, ou do fusca, pois alguns ainda dizem que fusca não é carro, mas pra mim é. Ele bem que me avisou isso, mas tenho pra mim que alguém com treze anos ainda não é munido de tal sensibilidade. Dirigir pra mim naquela época era similar a controlar um carro apenas pra direita ou esquerda, e claro, pisar no pedal direito, o acelerador. Mas a vida não é assim como o "enduro", o famoso jogo de video game em que perdi algumas tardes da minha vida e não me arrependo de nenhuma maneira.

 

-Mano, posso ir junto?

 

Quando me disse isso, mal sabia minha irmã o que estava por vir. Peguei a chave e saimos felizes rua afora, era um dia ensolarado me lembro bem, um provável fim de semana, cheio de pessoas na rua. Sentei no banco do motorista, meu avô ao meu lado direito e minha irmã que tinha apenas dez anos, no banco de trás. Tive uma breve aula de como ligar o carro, onde fica isso ou aquilo, pra que serve esse botão ou aquele, enfim dei partida e arranquei. Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que comecei de fato a respeitar as leis da física, uma delas a chamada velocidade tangencial. Traduzindo, você precisa reduzir a velocidade de um carro para fazer uma curva acentuada. E logo na primeira delas aprendi. Tentei dobrar uma esquina de duas ruas perpendiculares a cerca de 50 quilômetros por hora e evidentemente não venci meu obstáculo, estava por encontrar um lindo poste de madeira que sustentava a rede elétrica de todo o bairro e subitamente uma mão maior que a minha pegou o volante e me ajudou a girar no sentido necessário. Esqueci que no "enduro" não tinha freios e de certa forma ao entrar naquele carro pela primeira vez, me perguntei pra que servia o pedal central. Quando nos livramos daquele poste, a curvatura para o lado contrário tinha sido tão acentuada que o próximo passo era encontrar uma casa, outra a mão de meu avô salvou seu fusca 1979, e nós é claro. Aquele zigue e zague ainda durou uns bons metros e a frequência de batimentos cardíacos também, de nós três. Ao estabilizar a situação, olhei pelo espelho central e visualizei minha irmã as lágrimas no banco de trás. Estava assustada e pedindo pra sair do carro, até hoje sinto uma pena dela naquele momento, tinha apenas dez anos e era muito nova para tais emoções, mas mais tarde ela aprenderia a procurar as suas emoções, mesmo que fosse dentro de um ônibus, vagando sem rumo juntamente com minha prima. Para terminar aquele susto, subimos uma rua não tão ingrime, mas com uma inclinação razoável para um motorista tão jovem. Acelerar um carro é uma das sensações mais atraentes que se pode ter, porém na minha opinião, nem tão atraente é frear, tão pouco parar em um cruzamento de duas ruas íngremes e tentar arrancar depois disso. Ela tinha parado de chorar a pouco, pois bem, começou de novo. Ao tentar avançar aquele cruzamento não tinha ideia do tempo e sensibilidade necessária a qual julgar entre os três pedais, deixei o motor daquela poderosa maquina morrer e começamos a andar para trás rua abaixo. Fico feliz até hoje por saber que não tinha nenhum carro atrás de nós, dando assim espaço para nossa livre queda. As expressões das pessoas na rua eram diversas, mas a predominante era de espanto. Eis que dessa vez me salva um pé e não uma mão, mas dele novamente. Após conseguir colocar sua perna na minha frente e pisar no freio, meu avô me deu de fato uma aula de como "sair dali". Acho que aqui está a primeira vez na minha vida que entendi que não importa e situação em que você se encontra, sempre será melhor parar e pensar com calma no próximo passo. Assim o fiz e consegui chegar em casa.

Ao chegarmos, minha irmã desceu correndo e entrou em casa como se não quisesse sair dali nos próximos 10 anos, imagina entrar em um carro comigo novamente. Sinceramente, entendo muito bem porque demorou muito para alguém me oferecer um carro para dirigir de novo.

Nessa época, eu e minha irmã estudávamos em um colégio que se situava em uma rua paralela à que morávamos e a cerca de uns dois quilômetros de distância, de maneira que íamos e voltávamos a pé todos dias. O mais engraçado é que não trocávamos para nossa rua para voltar da escola, continuávamos na rua que não era a nossa e trocávamos apenas na rua perpendicular mais próxima a nossa casa, exceto em uma ocasião, se na semana em questão nosso avô vinha nos visitar. Meu avô era amante do vinho, como bom descendente de italiano, não se podia imaginar diferente. Tinha o costume de desfilar com sua maquina azul cerca de um quilometro, e parar sempre nos mesmo bar. Ficava ali sempre por duas horas, tomava um tinto seco de qualidade duvidosa, mas não se importava mais, gostava mesmo de estar ali, conversar sobre a vida e tratar bem os netos que trocavam seus caminhos para encontrá-lo antes de chegar em casa e voltar a vida normal. Naquele momento após as aulas, a felicidade para nós se traduzia em enxergar um ponto azul no horizonte. Sempre que entravamos na nossa rua, dessa vez no ponto mais próximo à escola, buscávamos somente um fusca 1979 azul estacionado em frente cantina e quando o avistávamos, a felicidade externada era tão visível que podia ser comparada a mesma sensação de quando você descobre algo novo. Quando chegávamos no bar, o abraçávamos e antes que qualquer coisa, ele dizia ao proprietário:

 

 -Pode deixar eles pegaram o que quiserem, eu pago.

 

Finais de manhãs regados a chocolates, balas, salgadinhos, refrigerantes e tudo mais que uma criança precisa para ser feliz. Mas hoje sei que não eram os doces que me seduziam, mas sim estar ao seu lado. Cada emoção que vivíamos ao lado dele, era sempre redirecionada aquela parte dos pensamentos no qual você nomeia "para sempre". 

Os momentos em que passei com ele eram sempre bem vindos e de felicidade, bem verdade que às vezes com um pouco de emoção, como quando dirigi seu fusca, mas o que é a vida sem ela? Nada. Emoção que sinto de verdade ao lembrar que esses dias em que estive com ele, e nada mais do que ele, foram nossos últimos dias juntos. Enquanto toda família festejava o aniversário de 15 anos da minha prima a 400 quilômetros de distância, comendo churrasco e fazendo muita festa, nós comíamos arroz, feijão, aipim e carne de panela, era a comida que ele fazia como ninguém. Independente de eu estar naquele torneio, quando voltava pra casa tínhamos momentos juntos e conversávamos sobre as nossas vidas como nunca tivemos oportunidade de fazer antes. Agora, provavelmente se entende quando digo que alguém estava "escrevendo certo" naqueles dias.  Foram sim maravilhosos dias, minha prima que me perdoe, talvez até hoje guarde uma mágoa por não estar presente, mas tendo em vista o andar da carruagem, realmente não me importo.

Cerca de um mês depois meu avô foi internado no hospital por motivos de insuficiência respiratória, era fumante desde sempre e o vício que ele carregava, o carregou para longe. Tinha medo, e como ele tinha. Não do hospital, mas da morte. Nascido e criado no campo, no interior do estado, sempre foi um peão, forte, aguerrido, sabia lidar com todos tipos de situações, e se tinha algo que ele nunca carregou consigo, foi o medo. Após sua morte, minha mãe ainda muita abalada, me disse: - Ele só tinha medo dela, da morte - O mais estranho é quando percebemos que somos tão insignificantes perante a morte. É praticamente revoltante lidar com a possibilidade de não estar mais aqui, mas o mais revoltante não minha opinião é não saber quando. Pode ser amanhã, pode ser daqui a 50 anos. E se fosse amanhã, o que você faria hoje? Qual seria sua próxima atitude? Quem você gostaria de ver? Onde você gostaria de ir? O que você gostaria de comer?  Quais seriam suas últimas vontades? Eu disse, é inquietante. Talvez sem realizar suas últimas e preferidas vontades, no dia 29 de agosto meu avô encontrou seu único medo. Sim, foi um dos dias mais tristes da minha vida. Não existe maneira de encarar bem uma notícia desse tipo, eu era muito jovem, mas já entendia algumas coisas da vida, e umas delas é que não veria mais aquele fusca azul chegando em casa trazendo a felicidade habitual às manhãs de sábado. Como um neto que acabara de perder seu querido avô, chorei, talvez pela primeira vez por um motivo realmente que importasse. Eu sei, somos impotentes perante a morte e eu sabia que não podia fazer nada. Os dias que seguintes foram de um imenso vazio no qual demoramos muito a nos habituar e mesmo após habituarmos a esse vazio, ele sempre será um vazio. Existe uma expressão em italiano que diz: "Guarda il cielo per cercare chi purtroppo non c'è più". Olha o céu para procurar aqueles que infelizmente não estão mais aqui, é a tradução mais adequada. Ainda hoje quando olho para essa imensidão azul, de certa forma o procuro e mesmo sabendo que não vou achar, sempre o vejo.

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