TaekwonDo, um esporte e seus princípios.

Sempre que faço alguma coisa, seja ela de qualquer tipo, procuro me informar bem sobre tal. Não foi diferente no caso do TaekwonDo que em coreano quer dizer: "A arte dos pés e das mãos". Vai mesmo longe quem o enxerga como uma arte e eu enxerguei por muito tempo. O dia que não foi mais assim, preferi parar. Poderia dizer que me arrependo em alguns aspectos, mas de grande parte, cravo com veemência que não. Simples, funciona assim, você começa, treina, se apaixona, é movido por sonhos e de repente alguém te mostra (ou você mesmo percebe) a realidade. 

A minha infância de certa forma foi um período de provas, uma comunidade pobre e cheia de problemas aos quais não vou me ater, mas muitas vezes me fez ser pressionado a brigar na escola ou provar que era mais que alguém fisicamente (números nunca te fazem mais que alguém no Brasil, ao menos não os que eu dominava). Uma briga aqui, outra ali e o Taekwondo começou a entrar na minha história como uma proteção. 

A primeira aula é uma "pancadaria", eu confesso, mas no bom sentido. Colegas e treinadores queriam alguém que pudesse continuar e que tivesse força mental para tal. Muitos eram aqueles que desistiam já na primeira aula ou na primeira semana mesmo. Tem as dores também, convivi com elas muito tempo. Sejam as dores dos primeiros treinos ou das inúmeras lesões. Em paralelo vão te apresentando a filosofia do esporte. Os que eu mais gostava eram os cinco princípios:

 

- Cortesia - YE UI
- Integridade - YOM CHI
- Perseverança - IN NAE
- Auto Domínio - GUK GI
- Espírito Indomável - BAEKJUL BOOLGOOL

As fases começavam a mudar e eu cada vez mais ia me integrando e adentrando no esporte de corpo e alma. Tomei como um desafio fazer tudo certo e a risca. Me integrei em tudo, sabia sobre a cultura, sobre a origem, sobre a Coréia e por vezes deixei meus treinadores assustados. Na verdade, assustado fiquei eu quando notei que ao longo do tempo ninguém dava muita importância pra isso. Bastava chutar! 

 

Os campeonatos aconteciam com uma frequência de 2 meses em média. Em geral em lugares perto de nós e de nível regional. Separados por pesos, faixas e idade. Unidos na vontade, força e garra. Buscávamos apoiar sempre uns aos outros, torcer mesmo, ao seu modo e significado mais puro. Aos gritos e aos punhos cerrados em cada ponto conquistado dentro de uma luta. Por sinal, sinto falta do "barulho do ponto", não sei explicar porque. Um "estalo" do chute no protetor de tórax do adversário, mais ou menos esse era o barulho. Me lembro de uma luta que venci por nocaute e ao olhar pro lado do dojan vi a mãe do meu oponente. Ainda sonho com o olhar daquela mãe. Me perguntei se era mesmo meu lugar.

 

Não é fácil chegar até a tão sonhada faixa preta, mas eu de certa forma bati um certo recorde nesse sentido. Em geral, não é possível alcançar tal feito em menos de 6 anos, devidos aos tempos mínimos exigidos com cada faixa. De maneira que praticamente ninguém alcança a preta nos seis anos. Eu alcancei. Queria muito aquilo e me tornei 1º Dan em 29 de abril de 2006. Até hoje brinco que esse diploma (sim, eu ganhei um diploma de faixa preta) é mais respeito que o de PhD em Matemática no Brasil.   

Infelizmente, ao perceber essa e outras coisas minha paixão foi declinando e nesse esporte não vale a pena ficar se não for por inteiro. Descobri, por exemplo, que faltou em alguns momentos cortesia de algumas pessoas. Que as vezes algumas academias não tinham integridade para escolher seus atletas. A federação faltou com esperança em muitos momentos de fazer um taekwondo melhor e um a um os princípios por nós sustentados iam caindo por terra. 

Sei muito bem que não posso ser ingrato a tudo e a todo o período que vivi como taekwondista. Lutar me vez muito melhor e muitos aprendizados foram base para outras conquistas na minha vida. Fui sim um defensor destes princípios e os carrego comigo até hoje. Assim como minha faixa preta, aquele diploma, um dobok velho e um espírito indomável.

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© 2018 por Julio Lombaldo.