Onde eu uso isso?

January 24, 2020

 

Nestes tantos anos de profissão eu certamente já desisti de contar quantas vezes eu ouvi essa pergunta: “Professor, onde eu vou usar isso?”. Acompanhadas, por vezes, dos mais ousados disparos: “Me dê agora uma aplicação disso!”. Ou ainda dos mais ferozes: “Para que serve isso?”. Nos últimos anos essas perguntas têm surgido em progressão geométrica. Para tentar entender esse fenômeno, eu vos convido a voltar um pouco no tempo. Convido a voltar no tempo que ainda não tínhamos tamanho acesso a informação. No tempo em que uma dúvida perdurava bem mais, maturava na medida necessária ou até mesmo te incomodava a ponto de não suportá-la, horas e talvez até por dias. Prazer, esse se chama “processo de aprendizagem”! Sim, o processo de aprendizagem, na minha opinião, nada mais é do que manter a dúvida no tempo necessário para possamos enfim em algum momento (nem sempre breve) dizer: Já sei! Para alguns, é quase que um processo de sofrimento temporal. E no fim, uma conquista. Aprendizagem não deixa de ser isso, uma conquista saboreada pela sua própria dedicação ao vencer uma dúvida. Agora voltem para o presente e imaginem esse processo resumido à cerca de 15 segundos. Difícil, não é? Pois é, o acesso a internet e mecanismos de busca tornaram a informação palpável em tempo recorde. O que não parece ser um problema em uma primeira amostragem. Porém, todo o processo de conquista falado antes, não é vivido e torna tanto a dúvida quanto a resposta simplesmente banal. Afinal, temos nosso computador de bolso sempre ao nosso lado. As pessoas não entendem mais o que é aprender de fato. Não realizam mais esse processo de aprendizagem. Mais do que isso, não o aceitam mais. E o pior, acham que sabem de tudo, mas desafie-os a não ter seu celular por um dia para ver o que acontece. Eu mesmo digo, entrarão em colapso, de uma hora para outra os sabichões serão apenas desorientados e envergonhados. Sem dúvida (e esta dúvida foi sanada com esse processo de aprendizagem temporal) essa não é a pior das desvirtudes emergentes dos tempos modernos, mas sim a ansiedade. Cada vez mais presente e gerada também por algumas dessas tecnologias. Para ser sincero, as pessoas não leem mais como a dez anos. Provavelmente quem faz essas perguntas citadas no começo, nem terminará de ler esse texto porque está muito ansioso pelo seu fim desde que ele começou. Como professor de matemática, eu já presenciei muitas opiniões sobre aprendizado, e se tenho algo a dizer, é que nunca estamos prontos o suficiente para seguir em frente sem abandoná-la por completo. Sim, a matemática está no meio de nós. Talvez não tão visível quanto a pele, mas tão importante quanto o coração. A matemática nada mais é do que lógica pura em forma de uma linguagem que em perfeita harmonia desvenda problemas dos mais simples até os mais assustadores. Antigamente eram apenas esses últimos que geravam as perguntas supracitadas. Hoje, devido a ansiedade e o veloz acesso a (des)informação, essas perguntas tem sido feitas até mesmo para julgar a famosa e simples fórmula de Bháskara. E antes que me perguntem novamente, é bem provável que você nunca mais a use, mesmo que siga uma carreira em exatas. Nesse caso pode parecer que temos as respostas para tais perguntas. Isto é, não usaremos nunca isso?! Sim, vão usar, mas de maneira mais sutil. Vamos usar toda a lógica por trás dessa linda linguagem chamada matemática. Estamos sendo constantemente treinados de maneira lógica quando a estudamos. Estamos sendo preparados para TUDO, simplesmente TUDO. Pensar de maneira lógica nos faz bem, nos ajuda a solucionar as tarefas do nosso dia a dia, mas também nos ajuda até onde não conseguimos imaginar. Não podemos enxergar apenas a casca como um objetivo, existe algo interno e que precisamos entender de uma vez por todas. Certa vez quando já treinava boxe à algum tempo, me perguntaram se eu queria bater em alguém, enxergando aquilo como o meu objetivo final. Obviamente nunca pensei nisso. Faço boxe e desfiro golpes todos os dias mesmo sabendo que fora da academia nunca irei repeti-los. Então porque faço? Por que me sinto bem, meu corpo se sente muito melhor, tenho mais saúde e me sinto em forma. E não, nunca baterei em ninguém. Bem como a fórmula de Bháskara, talvez você nunca mais a use, mas vai se beneficiar da lógica que aprendeu com ela e tantas outras quando estudou matemática. Você está treinando seu cérebro, não se preocupe, faz bem. Não é toa que inúmeros cargos de gerência ou até CEO de muitas empresas de grandes porte estão sendo ocupados por engenheiros e não por administradores, por exemplo. Mas o que faz isso acontecer? Uma inversão de mercado como essa tem alguma explicação? Sim! Engenheiros estudaram muito mais matemática e tiverem um condicionamento lógico muito mais estruturado. Tomam melhores decisões, fazem melhores ofertas, calculam melhor os riscos, levam em conta mais situações e assim por diante, e tudo isso sem usar a fórmula de Bháskara. Que incrível, não é? Isso não vale só para engenheiros, vale para qualquer profissão, médico, advogado, escritor e etc. Eu vos afirmo, a lógica vai te ajudar e muito! Os tempos são outros, fazemos parte de um novo tempo em que algoritmos são criados diariamente, os computadores (pensados por Alan Turing, matemático) dominam e ditam as regras e que quem não aceitar que a lógica é extremamente necessária está fadado ao anonimato. A matemática não termina no colégio nem na faculdade, ela te acompanhará até o fim de seus dias te dando suporte lógico para qualquer situação que você precise resolver. Não negue esse conhecimento e nenhum outro apenas porque está ansioso e nervoso para saber onde vai usar. Talvez lá no fundo a pergunta certa não seja “onde”, mas “como”. Bem, nesse caso, espero ter respondido.

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