Completude

November 11, 2017

 

No dicionário: qualidade, estado ou propriedade do que é completo, perfeito, acabado. Na vida: vou ousar tentar explicar. Eu nunca tinha me dado uma viagem de presente, tão pouco ganho uma e achei que aquele momento era propício para tal. As montanhas Incas eram sempre um alvo de luxo na caderneta imaginária de um viajante ainda mais imaginário, pois se hoje conheço grande parte do mundo, em agosto de 2010 isso era apenas um grande sonho. Ouvir as histórias de quem teve o privilégio de ir nesse solo sagrado era sim motivador, mas achei que era hora ter a minha. Cusco era a cidade grande mais próxima da encantadora Machu Picchu, no Peru. A desculpa (que me perdoem os ferrenhos acadêmicos) era um congresso internacional de matemática aplicada nessas terras Incas. Foi minha primeira apresentação internacional e de certa forma um dos congressos mais importantes da minha carreira acadêmica, mas uma apresentação em espanhol no auditório central da universidade para cerca de 200 pessoas não era bem a parte mais assustadora dos 7 dias vividos nas alturas peruanas. A falta de ar pode se tornar recorrente quando se está a cerca de 3500 metros acima do nível do mar. Confesso que não senti no começo, mas no segundo dia, bastou um pequeno pique para atravessar uma rua bem larga que ao chegar do outro lado puxei um ar que não vinha. O que ainda me chamaria atenção seria uma outra espécie de falta de ar. A do espanto com a natureza. Após a apresentação do meu trabalho em uma quarta feira, resolvi procurar meios de chegar à montanha. Sim, eu teria de ir até ela. As negociações, as agências sem recibo, as garantias inexistentes, os pagamentos em dólares americanos, os horários que não fechavam, os soles peruanos contados e as promessas nas quais eu não tinha outra alternativa a não ser acatar foram apenas o início da subida à montanha. Então estava tudo marcado, quinta às 21 horas, uma viagem curta de Van até Ollantaytambo e logo após um trem até o povoado de Águas Calientes que ficava ao pé da montanha de Machu Picchu para depois no dia seguinte subir até o sítio sagrado. Para início de conversa a viagem foi em um carro e a parte que diz curta virou longa por se tratar de um terreno acidentado e a beira da cordilheira. Após cerca de uma hora cheguei na estação de trem de Ollanta (assim pelos peruanos carinhosamente conhecida). Um único trilho, um único trem, uma única partida. Me lembrei do frio de 5°C à noite que comparado com um calor de 35°C à tarde castigava um pouco minha saúde, mas tudo bem, era por Machu Picchu, que se danem os lábios descascados. Durante a viagem sentada à minha frente e de frente para mim, estava uma mulher loira e alta que babava ao dormir, provavelmente com um cansaço similar ao meu e que não temos vergonha nenhuma de esconder ao dormir em público por uma jornada bem maior. Ela carregava uma mochila ao melhor estilo backpacker e só vi seus olhos azuis no último balanço do trem ao chegar em Águas Calientes. Era cerca de 23 horas e o plano era visitar Machu Picchu no outro dia cedo. Meus soles peruanos contados em moedas e poucas notas não tinham sido avisados que no pacote (vazio) que negociei com um “agente” de turismo em Cusco não constava esse pernoite necessário e descobri isso apenas ao conversar com trabalhadores de outros hotéis que me disseram que esse hotel não existia fazia uns 10 meses. Que ótimo! Procurei outros hotéis que “conversavam” com a minha quantidade de soles. Todos lotados. O que eu esperava, era Machu Picchu. Dormir na rua aquela noite parecia cada vez mais uma realidade e já não me importava mais ao olhar o relógio e ver que já eram 1:30 da madrugada, mas o problema era o frio. Um termômetro de rua local marcava 3°C. Foi quando resolvi fazer uma última tentativa em um pequeno hostel perto do termômetro. Ao entrar na pequena recepção vi a funcionária peruana e perguntei para ela se existia alguma vaga em qualquer cama que fosse e sua expressão já até tinha me respondido que não. Sinceramente, não sei se aquela índia já passou frio na vida, mas ela percebeu que eu estava prestes a passar. Foi então que ela me ofereceu o pequeno sofá de dois lugares na recepção, o qual eu cabia apenas bem encolhido, mas feliz e o com os olhos cheios d’água. Perguntei imediatamente quanto eu deveria ou poderia pagar para ela e o balançar de sua cabeça dizendo que nada deveria ser pago, me fez acreditar mais nos seres humanos. Antes de eu literalmente apagar ela me perguntou: - Você quer ir à Huayna Picchu? - O que é Huayna Picchu? Maldita seja minha ignorância, pois eu não sabia que Huayna Picchu era a montanha ao lado de Machu Picchu e provavelmente presentes em todos os cartões postais das terras Incas. Além de não saber seu nome, eu não sabia que era possível subi-la. Ela me explicou que para subir em Huayna Picchu eu deveria ser um dos 400 primeiros a chegar na entrada de Machu Picchu e que eu deveria acordar em torno de 3:30 para conseguir esse feito. Olhei para o sofá, para ela, para o relógio e disse: Impossível! Ela se ofereceu para me chamar nesse horário caso eu quisesse e topei. Foi assim que apaguei naquele maravilhoso sofá. Ao acordar e sair praticamente correndo, mas sem nunca esquecer a cara daquela pessoa, cheguei na fila das vans que sobem em zigue-zague a montanha Inca até seu pórtico principal. Subimos ainda era noite e na própria fila de entrada passavam funcionários fazendo a contagem dos primeiros a chegar e carimbando acima do punho a permissão de entrada a Huayna Picchu. Fui o 256°. O suficiente para entrar. Ao entrar em Machu Picchu você passa por uma pequena e coberta passarela onde sua visão é encoberta pela estrutura e quando ela termina... Voltemos ao significado da palavra completude. Parece que foi combinado, entre o sol, os Incas e terra, que exatamente as 6:15 do dia 13/08/2010 o sol raiasse e as minhas lágrimas caíssem ao olhar para Machu Picchu de dentro de suas paredes. Eu estava lá faziam alguns segundos e me sentia completo, em estado de paz, eu não precisava ver mais nada. Guardo aquela imagem na minha mente até hoje e guardarei sempre, a do nascer do sol mais lindo de todos. Talvez a importância daquele momento tivesse sido potencializada pela odisséia que passei para estar ali, mas isso já era segundo plano. Em primeiro vinha àquela visão que era sagrada e meus devaneios foram interrompidos ao uma mulher alta praticamente tropeçar em mim e pedir desculpas em inglês. Olhei para ela e reconheci os olhos azuis e sua face, dessa vez sem estar babando. Foi então que a coincidência do carimbo em sua mão direita me fez perguntar se ela estava indo em direção a montanha mais alta, Huayna Picchu. Hilary disse que sim, esse era seu nome. Nos apresentamos e caminhamos em direção a entrada da montanha, ao chegarmos na frente do portão e nos misturarmos a um aglomerado de gente descobri que devíamos esperar mais cerca 30 minutos, pois os portões de Huayna Picchu só abriam as 7 horas em ponto. À minha direita estavam três pessoas falando a mistura mais incrível de espanhol com francês que já havia visto. Não pude deixar de perguntar de onde eram. André, venezuelano. François e Laura, franceses. Nosso grupo de subida à montanha estava pronto, um brasileiro, uma americana, um venezuelano e dois franceses. Um mix de cultura invejável para a saga que estava por vir. Sim, mais uma. A subida até o topo de Huayna Picchu não é nenhuma simplicidade, e de longe não é mesmo. Existiam trechos muito íngremes e de difícil acesso ao longo da subida. As histórias contadas por muitos desses aventureiros incluíam episódios de pessoas que haviam morrido ao subir essa montanha. Altamente motivador. Naquele momento íamos nos conhecendo e cada um ia contando suas histórias, sejam elas de vida ou de como chegaram até ali. Laura era a que tinham o pior preparo físico e várias vezes a esperamos para continuar a ascensão. Não sabia o que veríamos lá em cima, mas eu já estava feliz por ter encontrado pessoalmente minha definição de completude. Conversei muito com André e graças às redes sociais nos falamos até hoje, lembro-me dele contando o período turbulento que sua Venezuela passava e mesmo ele morando na Argentina tinha pesar por tudo, vi seus olhos marejados em desejar um futuro próximo bem melhor. Hoje sabemos que os desejos de André ainda não foram alcançados nesse sentido. Perguntei a ele o que ele esperava encontrar lá em cima. Como seu bom espanhol me respondeu: “La cosa más linda de todas!”. No meio do caminho passamos pelo templo da lua, situado no meio do caminho de subida já nos dava uma idéia do que estava por vir. Algumas histórias sobre essas terras dizem que o sumo sacerdote Inca vivia ao topo de Huayna Picchu e que todas as manhãs descia até Machu Picchu para registrar a chegada de um novo dia. Nesse momento eu admirava ainda mais esse sumo sacerdote, pois estávamos no meio da subida e já exaustos. Um pouco antes de chegarmos ao topo da montanha perguntei a Hilary sobre a sua obsessão por fotos, pois mesmo muito mal equilibrava por vezes, não deixava de registrar quase nada em sua câmera profissional. Ela me contou que planejava criar um livro fotográfico de todas suas viagens e que já estava a meses longe de casa. Aquilo me surpreendeu um pouco vindo de uma nova-iorquina. Faltavam poucos metros, talvez duas ou três pedras pra chegar. Esperamos Laura nos alcançar e foi quando me dei conta que André estava ao meu lado e ambos à um passo do topo, falei para subirmos juntos. Ao chegar e olhar tudo lá de cima, era impossível descrever a nossa felicidade, ao invés de chorar, dessa vez nós não conseguíamos parar de rir. Quando retornei a mim mesmo, juntei as mãos quase que como uma expressão de reza e agradecimento, respirei talvez o ar mais puro de todos os tempos da minha vida, ouvia o barulho de uma brisa cortando não só meu rosto, mas minha alma. Nada após aquilo será o mesmo pra mim. Nada após estar completamente pasmo com um mundo à minha frente e eu no lugar mais alto de todos naquela região. Foi quando o clique de uma máquina profissional se fez presente e ao olhar pra minha esquerda vi Hilary juntamente com sua máquina olhando pra mim, ela disse: - Essa vai pro livro, ok pra você? - Hoje está tudo ok pra mim. Foi quando voltei um pouco à realidade e disse para André: - Acho que merecemos uma foto para eternizar esse momento, não foi nada foi fácil chegar aqui. - Concordo plenamente. E foi assim que ainda longe dos tempos das fotos tipo selfie, estendi meu celular e pedi para Hilary tirar a foto que eternizava uma jornada de gratidão e completude, me juntei a Andre e nos agachamos na pedra mais alta de Huayna Picchu e Hilary fez o resto do trabalho de encaixar Machu Picchu bem pequena ao fundo. Eu não queria mais nada, ficamos ali por cerca de uma hora. Eu podia ter ficado dias. Essa era minha vontade. Agora sim eu estava completo e minha definição de completude devidamente atualizada.

Please reload

Textos em Destaque

Fusca Azul 1979

November 16, 2016

1/10
Please reload

Mais recentes...

January 24, 2020

June 3, 2019

May 12, 2019

February 13, 2019

December 23, 2018

August 2, 2018

August 1, 2018

December 6, 2017

Please reload

Arquivos
Please reload

Tags