Diego

September 29, 2017

 

Num final de julho, o ano era 2014. A vontade era de uma pizza napolitana conhecida mundialmente por ser a melhor. O lugar era uma pizzaria simples e vizinha à estação de trem, creio na esquina da rua Novara com a rua Palermo, mas poeticamente não lembro o nome. Estar em Napoli era estar em um mundo à parte, uma própria “ilha” dentro da culturalmente imensa Itália. Eu tinha apenas dois dias para varrer Napoli de ponta a ponta. Impossível. Fiquei me perguntando porque demorei tanto tempo pra ir lá. Nem mesmo na belíssima língua de Caruzo, o Napolitano, eu encontrei uma explicação. Tampouco em uma letra de Rocco Hunt ou Fiorentino, poetas contemporâneos locais. Restava a mim, apenas deixar o vento sulista me levar e foi nesse lugar que eu parei. Ao entrar na pizzaria, me deparei com um cartão postal clichê italiano. Mesinhas simples e retangulares com toalhas em xadrez vermelho e branco, vasos simplórios como decoração final e nada mais que o dono do próprio estabelecimento atendendo seus clientes. Em um italiano carregado com “Il acento di giù” (sotaque do sul) atendia com amor e paixão a quem minutos depois serviria uma bela pizza, mas não era só isso, seria a sua pizza. As paredes eram todas pintadas em azul celeste e em alguns estratégicos locais, televisões pequenas e que estavam ligadas em canais esportivos italianos. Era cedo quando entrei, meu relógio marcava onze e meia. Fui provavelmente o primeiro cliente daquele almoço de sexta-feira. Olhei para o menu e disse o que sempre dizia: “Diavola”. Assim como é chamada a pizza de calabresa picante por toda a extensa bota. Já tinha criado o hábito de pedir o mesmo sabor de pizza sempre que aportava em uma nova pizzaria, para que eu assim pudesse, comparar os sabores com mais precisão. Meus críticos (e todos têm os seus) diziam que eu não conhecia a diversidade da pizza italiana por culpa desse hábito. Mentira, das grandes. Isso se repetia apenas nas novas pizzarias, pois quando o local já era conhecido o sabor era devidamente diversificado. Ele olhou para mim disse:

- Qual pizza, “signore”?

-Diavola, “per favore”!

Simples assim, eu fiquei esperando o meu almoço, mas não sem antes notar a entrada de um casal com seu filho que aparentava ter cerca de 12 anos de idade. Sentaram-se em uma mesa muito próxima a minha, o que não era de todo impossível, devido a dimensão do local. Não pude deixar de perceber no sotaque deles uma mistura de castelhano com italiano. O garçom/dono do estabelecimento veio até eles para fazer a mesma pergunta que dirigiu a mim instantes antes. Foi quando tudo ali começou a mudar.  Pra quem não tem idéia, Napoli respira futebol, ou melhor, “Il calcio”. Cresci escutando as histórias futebolísticas do meu pai e sempre lembro da paralisia em seu olhar ao falar de um certo Napoli do final dos anos 80 e começo dos anos 90 e de sua dupla com Careca e Maradona que conquistou títulos nacionais e até europeu naquela ocasião. Sempre fui fã do futebol de Maradona, mas nunca tinha presenciado como vidas podem de fato mudar por isso. Até aquele presente momento. Antes de fazer seus pedidos, havia algo que aquele pai gostaria de dizer ao dono da pizzaria. Olhou para ele e disse em bom italiano:

-Meu filho é Argentino.

Foi quando os olhos do nosso ilustre garçom/dono encheram de lágrimas e com dificuldade de falar, olhou para o garoto e disse:

- Conhece Diego?

- “Si” – Prontamente respondeu o menino.

Foi quando ele se ajoelhou e beijou a mão do pequeno garoto. Logo após, ainda segurando sua mão, o puxou levemente para longe da mesa e como que convidando o menino foi andando em direção a uma porta, da qual eu ainda não tinha notado, onde dizia em italiano “localli”, algo como o famoso e conhecido “Staff Only”. Ao abrir a porta e sem nenhuma vergonha de chorar, eu entendi o que se passava ali. Imagine uma pequena sala de cerca de 3 por 4 metros tomada da quadros da “Squadra” do Napoli da época de Maradona. Do ângulo que eu estava e que sem nenhum medo me inclinei para ver ainda mais, notei diversas fotos. Times, taças, duplas, personalidades famosas, mas todas de Napoli e de:

-Diego.

Foi o que ele disse ao abrir a porta e apontar para as paredes olhando para o garotinho argentino.  Abraçou aquele menino como se o mesmo fosse filho de Maradona. Será que era só o futebol de Diego que fazia isso? Claro que não. Diego Armando Maradona foi sim um dos melhores jogadores de futebol do mundo. Para muitos, inclusive, foi o melhor. A verdade é que Diego abraçou mais do que uma causa, abraçou uma cidade, uma língua, um estilo de vida. Maradona não apenas jogava e recebia seu salário. Maradona amava Napoli e sua torcida apaixonada. Maradona deu a ela simplesmente tudo. Napoli sempre foi esquecida para cofres e pensamentos políticos do centro-norte italiano onde sempre se concentrou o poder. Napoli só era lembrada em páginas policiais. Diego colocou Napoli no mapa, ao seu modo, é claro. Diego fez 80 mil italianos torcerem para a Argentina contra a própria Itália na semi-final da copa de 1990, onde quisera o destino que fosse realizada no estádio San Paolo, em Napoli. Ele disse: Nunca fizeram nada por vocês, não façam por eles. Ainda esticando meu pescoço notei que havia uma foto de Diego com o dono da pizzaria, bem mais novo na ocasião, mas consegui reconhecer. A porta se fechou, ele abraçou o garoto que nunca havia visto antes, mas talvez como um agradecimento pelo simples fato de ser argentino, o reportou a época da glória da “squadra” napolitana.  Pensei, nada mais poderá me surpreender hoje. Errei. Aquela Diavola foi a melhor pizza que já comi.   

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